«Quem se senta no deserto e se preocupa com a quietude do seu coração fica dispensado de três batalhas: com a audição, com a palavra, com a vista. Resta-lhe apenas uma a combater: com o seu coração.»
No deserto!
21-09-2018
Há algum tempo, relativamente a um grupo do qual faço parte, foi-nos dito que "estávamos no deserto"! Desde então que esta frase me tem ficado no pensamento e após alguma reflexão e pesquisa penso agora poder mostrar o que a mesma quer dizer, pelo menos no meu entendimento, que pode não ser o mesmo da pessoa que disse esta frase.
"O deserto é um símbolo em muitas culturas; é-o sobretudo na antiga espiritualidade dos chamados "padres do deserto". E é ao mais célebre deles, Santo António, que é atribuída a frase que proponho com título deste post.
"Hoje a frase "sentar no deserto", por ele usada, não evoca tanto a postura típica dos beduínos, imóveis nesses espaços solitários. Ela é antes de tudo sinónimo de "contemplar"".
"É neste sentido que se torna clara a lição de Santo António. Pode facilmente vencer-se uma luta tríplice quando se está na solidão; a audição não fica suja de palavras vãs, a boca não emite murmurações e vulgaridades, o olhar não tem diante de si imagens provocadoras e perturbadoras."
"Ainda assim não é suficiente para se ficar na perfeita serenidade. É preciso, com efeito, combater a batalha do coração. É dele que fluem - como já dizia Jesus - todas as intenções perversas, e é por isso que não basta o silêncio exterior, a paragem, para se estar na paz interior."
"Deve-se, antes, iniciar finalmente uma obra de purificação e de libertação do coração, ou seja, da consciência, para que torne a ser fonte de amor, de luz, de confiança, de pureza."
em https://www.snpcultura.org/no_deserto.html
Contexto Bíblico
O deserto constitui, no Antigo e do Novo Testamento, um tema de atracção
particular. Sabemos que Israel teve no deserto as experiências mais
imediatas da presença, do amor, da misericórdia de Deus, e que nele teve
que lutar pela pureza de sua entrega, pela fidelidade a seu Deus. Para
uma tradição, o deserto passou a ser inclusive um símbolo da relação
mais pura, da frescura do primeiro amor entre Deus e Israel.
É no deserto que São João Baptista começa o anúncio do Reino de Deus, e
para onde foge a Igreja perseguida do Apocalipse (12,5-6). É também a
montanha solitária lugar preferido por Jesus para sua oração íntima. Mas o deserto é, além disso, morada do demónio, símbolo do obscuro e
sem vida. Jesus é tentado no deserto e, segundo seu próprio ensinamento,
esse é o lugar próprio dos demónios.
E Jesus?
O que parece certo, teológica e historicamente, é afirmar que Jesus,
depois do baptismo, buscou o deserto para um tempo de discernimento, em
oração, em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho, sob o
impulso do Espírito. De algum modo teve de reflectir e discernir sobre
qual caminho assumiria para realizar a
missão em sua vida pública. É um tempo de busca, de conflito interior,
de crise. A partir deste discernimento e opção, o papel de Jesus
se manifesta como "diferente" daquilo que muitos esperavam em Israel.
Sob esta óptica, e voltando ao grupo que pertenço, as tentações que Jesus enfrentou e venceu no deserto, ou o próprio sentido do deserto não devem ser vistas simplesmente como uma prova a superar mas sim como um projecto que deve ser discernido e assumido.
A "crise" põem à prova a nossa atitude perante Deus, nomeadamente em como viver a nossa missão e a partir de onde!
Assim, e pegando nas palavras do Papa Emérito Bento XVI, espero que saibamos ver este deserto como o lugar do silêncio e da pobreza, onde desprovidos de ajudas materiais nos encontremos diante dos princípios fundamentais da existência. Onde somos impelidos a ir apenas ao essencial, e que por precisamente isso, nos seja mais fácil chegar a Deus!
Resumindo:
1 - Todos os caminhos da redenção passam pelo Deserto!
2 - Deserto significa tempo de mudança mas também de comunhão!
3 - O deserto não é fuga nem alienação mas sim silêncio e contemplação!
Já diz o lema da Ordem Dominicana: "Contemplata aliis tradere", Contemplar e dar aos outros o que foi contemplado.
É o que estamos a fazer pelo que devemos estar no caminho certo!